Um pequeno duende passeava todas as manhãs pela Grande Floresta Negra (como era conhecida). Um lugar bastante obscuro, que segundo a lenda, abrigava espíritos perdidos, armadilhas que poderiam te levar a locais inimagináveis, causar o sofrimento eterno. Um local para alocar aqueles que após a morte, não subiriam, nem desceriam. Mas tal lugar, por outro lado, não oferecia risco aos duendes, uma raça que brincava e testava o certo e o errado, a todo momento. Certo dia, o pequeno duende sentiu um grande vazio dentro de seu peito. “Ai” – pensou. “O que é isso, o que acontece comigo?”.
Sem resposta, continuou seu passeio matinal, em busca de materiais que pudesse, mais tarde, barganhar em seu vilarejo. Sentiu a presença de humanos, o que segundo a sua cultura, era sinal de perigo. “Nunca se aproxime dos humanos, pequeno. Mais cedo ou mais tarde você sentirá a curiosidade de aprender sobre essa raça, mas não o faça. Você se arrependerá” – dizia seu avô. “Melhor eu me afastar”.
Assim que se virou, o pequeno duende viu o objeto mais lindo da sua vida. Não podia acreditar que algo como aquilo poderia existir. Somente estar na presença de tal objeto, o deixou com uma mistura de felicidade extrema e dor. Falta de ar e palpitação. Era uma pequena carta de baralho, uma Rainha de Copas.

Nos próximos dias, o pequeno duende se sentiu totalmente realizado. Completo. Tudo que pensava era em dedicar a sua vida a cuidar daquele objeto tão lindo, tão precioso, tão raro. Porém, não podia mostrar a ninguém o que havia encontrado, pois com certeza haveria uma grande disputa para possuir sua Pequena Princesa, como ele a chamava.
Entretanto, com o tempo, começou a sentir novamente aquele vazio ocorrido no dia do descobrimento da sua grande paixão. Sempre vinha acompanhado de um nó na garganta profundo, uma grande falta de esperança e um leve desespero. “Gostaria que você saísse dessa carta e vivesse comigo Pequena, não suporto mais te ver assim, presa nesse quadrado com esse sorriso melancólico”. E foi assim que o pequeno duende decidiu que dedicaria todas as suas forças a encontrar o Alquimista que morava na Grande Floresta Negra.
“Siga ao leste, até ver um grande tronco. De cima do tronco, você verá uma pedra que te ajudará a atravessar o rio. Após o rio, tire seus sapatos e se seque, pois a partir dali você estará no território dos espíritos perdidos, que caçam e reconhecem uma alma humana pela composição da água. Continue seguindo ao leste, até que verá uma pequena casa. Bata 7 vezes e convença a senhora a te levar ao sótão. Lá estará o Alquimista. Ele não possui forma física, para se comunicar, basta utilizar o seu pensamento”. Essas foram as instruções passadas pelo elfo seu amigo, um pequeno ser do bem, que tinha a intenção de ajudar qualquer tipo de vida a conseguir o que desejava.
E o pequeno duende partiu. Tronco. Rio. Secagem. Espíritos. Casa. Senhora. Alquimista.
- O que você deseja, pequeno duende?
- Preciso que você tire o grande amor da minha vida dessa prisão. Ela está condenada a viver nessa carta, e eu não suporto mais seguir sem seu toque, sem seu sorriso. Por favor Alquimista, tenho plena certeza que esse é o objetivo de minha vida. Se não conseguir com você passarei o resto da eternidade encontrando uma solução.
- Ah, pequeno duende. Vejo que você chegou mais perto dos humanos do que deveria. Isso que você está sentindo chama-se “Amor”. É o sentimento mais perigoso de todos. Posso realizar seu desejo, desde que esteja totalmente decidido que isso será o melhor para você.
- Sim, Alquimista, por favor. Faça isso por mim e serei eternamente feliz.
- Se as coisas fossem fáceis assim, pequeno duende, nosso mundo não teria o Bem e o Mal. Você sabe que essa carta representa uma Rainha de Copas, né? Ela é uma humana, com falhas.
- Sim, estou ciente disso. Mas preciso libertá-la, preciso dizer pelo menos 1 vez o quanto a amo.
- Então assim será, meu caro amigo.
E a mágica foi feita. Após algum tempo fora do sótão, o Alquimista chamou o pequeno duende. E lá estava ela. Linda.

- Obrigado, pequeno duende, por me libertar dessa carta.
- Obrigado você minha querida, por existir e ter aparecido em minha vida, a partir do momento que te encontrei, me senti mais vivo do que nunca.
- Serei eternamente grata, te amarei para sempre.
- Eu também amor, te amo, sempre te amei, e sempre te amarei.
Mas o pequeno duende precisou se mudar de sua pequena vila. O contato com humanos era totalmente proibido, devido a facilidade dos duendes em sugar seus sentimentos bons e ruins. Sendo assim, ambos deixaram as redondezas da Grande Floresta Negra, e passaram alguns anos em uma pequena praia de água doce.
Até que um dia, o pequeno duende acordou, e o grande amor da sua vida não estava mais lá. Deixou apenas uma carta dizendo: “Querido, não pense que eu não te amo. Você será o dono do meu coração por toda a eternidade. Porém, meu espírito é humano, eu preciso viver algumas coisas novas, diferentes. Não entregarei meu coração para ninguém, em momento algum. Peço que me desculpe. Sinceramente sua, com amor, sua Pequena Princesa”.
- Não, isso não está acontecendo. Acorda. ACORDA. ACORDA!
Mas estava acontecendo. A partir daí, o duende perdeu por completo a vontade de prosseguir. De viver. De voltar a antiga vila. Chegou a tentar se matar, porém os duendes possuem um espírito incapaz de executar algumas coisas, e entre elas, está o de acabar com uma vida.
- Eu deveria ter escutado meu avô. Eu nunca deveria ter me aproximado de um humano. Esse sentimento “Amor” me destruiu, acabou com a minha vida. Como pude ser tão infantil e achar que poderia ser feliz vivendo algo que não foi feito para mim?
Demorou alguns anos até que o pequeno duende resolvesse (tentar) prosseguir com a sua vida, voltar ao vilarejo em que nasceu, à rotina que vivia antes de conhecê-la. Executou, porém com muita tristeza. Lá estava ele, de volta, sabendo o poder de alguns sentimentos, como era possível sentir algo tão forte. Tão bom em 1 segundo. E tão ruim em outro. Sentia uma enorme tristeza, um arrependimento de ter começado tudo isso. Esses sentimentos o consumiam da pior maneira possível, dia após dia.
Mais alguns anos se passaram. O pequeno duende nunca se recuperou, sentia sua vida lascada, como se a sua alma tivesse sido trincada, sem conserto. Chorava todos os dias, tentou encontrar o Alquimista para fazê-lo esquecer de tudo que tinha acontecido, mas nunca mais conseguiu chegar à pequena casa.
Até que um dia, enquanto passeava sem rumo, chutando pequenas pedras e colhendo gravetos, seu coração praticamente parou. Por alguns segundos ficou paralisado. Uma grande confusão de tempo e espaço, não sabia se era uma memória voltando ou se aquilo realmente estava acontecendo. E estava.
Para sua surpresa, o pequeno duende encontrou uma nova carta de baralho perdida. Uma outra Rainha de Copas.
- Não pode ser. Isso é uma piada de muito mal gosto de alguém. Não, isso não está acontecendo.
E ele correu. Correu até faltar fôlego. Correu até não suportar mais. E chorou. Até que percebeu que, sim, aquilo estava realmente acontecendo. Havia muitos sentimentos ruins dentro de seu coração. Não voltou para pegar a carta. Não imediatamente. Mas após alguns dias se convencendo que o melhor era se afastar, não conseguiu evitar, e voltou ao local da descoberta. E lá estava ela. Uma nova Rainha de Copas. Não pensou duas vezes. Levou a carta até o Alquimista novamente. E para a sua surpresa, encontrou a pequena casa na primeira tentativa.
- Você lembra de tudo que passou, pequeno duende?
- Sim, Alquimista. Tenho certeza do que estou fazendo.
- Você sabe tudo que está deixando pra trás? Novamente? Por um sentimento humano?
- Sim. Estou totalmente decidido. Enquanto vivi o amor, vivi os melhores momentos da minha vida.
- Então, assim seja feito.

E o pequeno duende viveu eternamente ao lado de sua amada, como um Ás de Copas. Duas cartas que nunca foram separadas, que se completam e se completarão, para sempre. Justamente como o amor deveria ser.
———————-
Escrevi essa história hoje, em algumas horas. Ironicamente, escrevi enquanto escutava um cd do Daft Punk chamado Human After All. Começou como um post contando algumas histórias antigas (que envolviam uma Rainha de Copas), e acabou se tornando essa história, que nada mais é do que um grande desabafo. Quem esteve presente nos últimos meses da minha vida sabe exatamente do que eu falo. E aproveito para dizer que esse não é o primeiro capitulo do Crossover Literário.