Eu comecei nesse “mundo” de tatuagens/piercings lá por volta de 2000, quando coloquei meu primeiro piercing. Comecei a me interessar por esse tipo de arte (mas nada de suspensões ou body modifications esquisitos) e sempre fui planejando o que faria a seguir. Em 2001 tive uma amiga que trabalhava em um estúdio colocando piercings que me ensinou algumas coisas: Coloquei 1 piercing nela e pintei um mini-desenho, e confesso, pensei em seguir carreira (o que não aconteceu).
Oito anos depois, resolvi compartilhar um pouco a minha experiência nesse tipo de arte, que pode definir tanto positiva, quanto negativamente, quem você é. Não estou escrevendo aqui dados científicos ou informações médicas ou de profissionais de tatuagem. Apenas a minha experiência pessoal vivida, compartilhada nesse texto.
Artista
A escolha do tatuador/estúdio é uma das partes mais importantes do desenho. A higiene, os cuidados em dispensar o material cortante, o aço cirúrgico, e a qualidade da tinta são conceitos básicos que DEVEM ser analisados. Doenças contagiosas podem ser transmitidas pelas agulhas e esse pode ser um caminho sem volta. A qualidade das tintas e a quantidade de tons disponíveis também fazem a diferença: após acompanhar o mundo das tatuagens é possível começar a identificar tintas especiais ou tons diferentes. Realmente vale a pena. E por fim, o artista em si muda completamente a experiência de se tatuar. O peso da mão, as técnicas de desenho, e até mesmo a simpatia e educação do tatuador pode te traumatizar ou tornar a tatuagem algo bem mais tranquilo.
Levando como exemplo: A minha tatuagem no braço foi feito no mesmo estúdio que coloquei um piercing, e a impressão do artista foi a mesma nas duas ocasiões – total falta de vontade de fazer o que fazia, faltou educação e sobrou grosseria (inclusive foi muito rude com a menina que trabalhava no estúdio). Meu braço sangrou bastante, não troquei 1 palavra durante as 2 horas do desenho, senti muita dor e até o curativo doeu muito para ser feito. Com certeza não voltarei, e sempre que posso, faço a minha propaganda negativa. Já a da perna, apesar do valor bastante alto, e de alguns locais complicados, muito doloridos, a experiência foi outra por completo. Foi bem mais fácil passar pelas 2 sessões até agora, e apenas para comparação, a área é muito maior e não saiu uma gota de sangue sequer.
Work-in-progress: 1 sessão para o fim.
Lembre que o desenho é (teoricamente) eterno, vale a pena investir em um estúdio de maior qualidade.
Dor
Até agora a minha experiência diz o seguinte: As extremidades dos membros (como canela, tornozelo, joelho, punho), locais de pele muito fina, e emcima dos ossos, são os mais doloridos. Tendões podem adicionar alguns pontos extra. O tipo de dor é relativamente diferente dependendo do local, da grossura da agulha e do objetivo (traçar ou pintar – que pode adicionar algumas agulhas ao mesmo tempo). Em alguns momentos a sensação de ardência bem aguda domina, enquanto em outros, a sensação chega a parecer algo como uma faca em altíssima temperatura cortando e cutucando a sua pele.
Em ápices de dor e momentos difíceis, durante a tatuagem, é comum suar bastante. Um Ipod ajuda, mas não resolve o problema.
A mão do tatuador também muda muito. Quanto mais experiente, melhor. O costume geral é pegar mais leve em garotas, e acelerar/pesar a mão em rapazes. O correto é não sangrar, o líquido que sai deve se limitar ao plasma, e não ao sangue em si.
O pós também é relativamente doloroso. As primeiras 24 horas são as piores, mas após isso, tudo fica muito mais tranquilo. O Sol precisa ser evitado o máximo possível, e durante a cicatrização é comum sofrer com coceiras extremas (que também devem ser vencidas). É de extrema importância um bom cuidado, para evitar complicações e garantir uma boa cicatrização, que deixará seu desenho mais bonito para sempre.
Um caso que aconteceu comigo (e sei de conhecidos que passaram pela mesma situação): após a primeira sessão da tatuagem na perna (que durou 2 horas e meia e foi bem agressiva, em locais bem dolorosos), durante a noite, me senti muito fraco e cansado durante o banho, chegando ao ponto de querer sair naquele momento do chuveiro para deitar, pois parecia que passaria muito mal lá dentro, desmaiar ou algo do tipo. Não cheguei a passar mal, mas a minha pressão abaixou bastante. Nas outras sessões/desenhos não senti algo parecido, mas é bom no dia da tatuagem, não abusar (com muitas bebidas, drogas, saunas, etc).
Preconceito
Infelizmente, o preconceito ainda existe. Sou consultor (de desenvolvimento de um sistema de gestão de negócios para grandes corporações – cansa até de falar), e as empresas pagam meus superiores para que eu vá em seus escritórios e resolva problemas específicos. Seguindo aquela “regra” que diz que A primeira impressão é a que fica, minhas tatuagens ficam escondidas no mínimo até o cliente criar uma relação de confiança com o meu serviço, ou com a minha pessoa. Mas na grande maioria das vezes, por ter que usar roupa social (e pela benção do ar condicionado), o cliente não precisa saber sobre os desenhos na minha pele.
Citando um exemplo ocorrido comigo há pouco tempo, agora em 2008 participei de um grande projeto de migração de sistema. Após cerca de 4 meses no mesmo, durante um almoço, um dos consultores de negócios da mesma consultoria que trabalho (um cara com MBA completo, formado pela USP), comentou ao ver um desenho tatuado em alguém que passava: “Olha, que vagabundo! Ah não adianta, pra mim, tatuagem é coisa de malandro, de bandido. Que merda alguém tem na cabeça pra fazer isso?”. Ele não sabia sobre as minhas tatuagens, mas fiz questão de mostrá-las no mesmo momento. Mais tarde descobri que sua irmã (também consultora) tinha várias tatuagens. Sobre garotas tatuadas, o comentário era unanime: “Essa gosta de manter relações íntimas pelo orifício sulista” (não-sic).
A necessidade de esconder meus desenhos fez eu prestrar muito mais atenção nos pensamentos alheios, e não poderia ser mais desanimador. As pessoas não sabem que tenho tatuagens e comentam livremente sobre a arta. A grande maioria julga as pessoas pelas histórias formadas em suas cabeças, sem querer saber o quanto elas são verdadeiras ou não (famoso preconceito). E as tatuagens parecem trazer histórias negativas para os mal-informados. É sempre mais fácil ver a capa de um livro e dizer “Ah esse livro é para maloqueiro” do que lê-lo e formar uma opinião que requer o trabalho de neurônios.
Os clichês tendem a sofrer com mais preconceito.
Imagem via Sunny Fuerteventura.
A minha conclusão sobre isso é: A ignorância impera na sociedade. Sendo assim, se para você a opinião dos outros é parte vital da sua felicidade (não é o meu caso), pense duas vezes antes de se tatuar. Enquanto as pessoas mais jovens, mais inteligentes, mais justas, poderão amar e idolatrar seu desenho, a maioria pode te magoar. E muitas vezes, a rejeição e pré julgamentos podem vir da sua própria família, o que pode ter um impacto bem negativo na sua vida.
Motivos para fazer
- Se você tem a possibilidade de escondê-las – é vital, dependendo da sua profissão e/ou ciclo social, em algumas ocasiões esconder seus desenhos. Não para esconder quem você é, mas sim para dar uma chance para as pessoas que você precisa ou deseja manter uma relação, mas que a ignorância de uma primeira impressão possa te julgar erroneamente.
- Se você não se ofende e não apoia sua felicidade emcima da opinião do outro – comentários infelizes podem ser feitos, e isso não pode influenciar sua satisfação, pois uma vez infeliz, sempre infeliz. E a dificuldade para retirar o desenho é muito maior.
- Se pretente tatuar algo com um significado eterno, como um desenho para lembrar uma fase (fácil ou difícil), algo familiar, ou opiniões sem a possibilidade de alteração de valor – uma maneira interessante de não enjoar ou desanimar do seu desenho, é focar na fase que ele foi feito, na idéia que ele representa, pois mesmo que tudo ao seu redor mude, o seu passado não mudará, e a tatuagem te lembrará disso.
Motivos para não fazer
- Se tem a idéia de tatuar coisas mutáveis ou que dependem de outra pessoa, como desenhos de um relacionamento, ou de uma música conhecida no ano corrente – as coisas mudam, as pessoas mudam, os interesses pessoais mudam, já a sua pele sempre levará aquele desenho contigo, até o caixão (ou a cliníca de remoção).
- Se você não aguenta muita dor – pois a dor de tatuagem realmente não é algo a se brincar. É inteligente não começar com um desenho enorme ou em lugares muito sensíveis caso tenha essa dificuldade, para conhecer a sensação antes de se compromissar com algo muito grande.
- Se não conhece um estúdio de tatuagem confiável ou se não pretende investir o suficiente para pagar um artista de qualidade – o reaproveitamento das agulhas pode trazer inúmeras complicações, incluindo a transmissão do vírus HIV (entre muitos outros), e os produtos de baixa qualidade estragam o desenho com o tempo ou podem causar inflamações ou alergias muito fortes. Existem casos até de inflamações gravíssimas causadas por bactérias na saliva do tatuador.
- Se você ainda é novo, está nos “teens” da vida – muito provavelmente seus interesses mudarão e o arrependimento baterá. Por ser algo que te marcará para sempre, porque não esperar mais uns anos, chegar em uma fase mais estável para marcar sua opinião e/ou experiências na pele?
Lembra-se do Zune Guy?
Tatuou o logo de um dos produtos mais falidos da Microsoft…
Conclusão
Ter, assim como a experiência de fazer uma tatuagem, é, sem dúvida, uma daquelas coisas marcantes que acontecem na sua vida. Você não esquecerá do dia que a tatuagem foi feita, dos comentários, da companhia, do tatuador, etc. É algo pessoal as-it-gets. Se fizer responsavelmente e com a certeza necessária, será algo sensacional e muito interessante. Mas um descuido, e a experiência pode ser traumática.
Mario!
Via Kotaku.